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"Tem havido incongruências nas previsões das receitas do sector para o orçamento do Estado"

Engenheiro e analista, Patricio Quingongo trabalha há muitos anos no sector dos petróleos e representa também uma nova visão para um sector que durante muitos anos foi gerido por um grupo limitado de pessoas, mas que necessita de novas ideias e novas práticas, assentes num novo modelo.

O preço do barril de petróleo recuperou esta semana resultado da conversa entre Donald Trump e Putin, tendo o Presidente americano comunicado que o príncipe saudita também estava a par destas conversações, e que se tinha comprometido a ajudar. Isto foi o suficiente para que o preço aumentasse cerca de nove dólares em apenas sete dias. Este pode ser o princípio da recuperação do valor do crude nos mercados internacionais?
Início, talvez. Quando os três maiores produtores mundiais - Rússia, Estados Unidos e Arábia Saudita - falam, isso anima o mercado. Mas a Covid-19 é que é o maior problema. Os impactos económicos e políticos na actividade produtiva mundial. Pretende-se estancar o problema, mas não é a solução. Só quando o mundo voltar a produzir normalmente é que os preços vão recuperar de forma sustentada.

Se a Rússia e os EUA se entendem a Arábia Saudita é obrigada a ir atrás, ou pode fazer a política da terra queimada com o apoio dos seus aliados, nomeadamente os Emirados Árabes? 
A Arábia Saudita não é obrigada a entender-se. Dos três é o único com capacidade real de influenciar o mercado e os preços. Carrega a OPEP nas suas costas, faz parte do cartel, o que não acontece com a Rússia e EUA.

Mas os aliados na OPEP não estarão zangados com os árabes depois destes acontecimentos? Não podem afastar-se das suas posições? 
Não! Não é assim que olhamos para o mercado. A Arábia Saudita é fundadora e a própria OPEP. É o único país do mundo que doa as receitas que deveria arrecadar para valorizar o preço de mercado. Abdica de receitas petrolíferas para manter o preço do barril nivelado para que todos os produtores tenham benefícios económicos. O único país que pode fazer isso é a Arábia Saudita.

Como é que Donald Trump se pode comprometer com uma estratégia de cortes se as companhias são independentes? 
Esse é o problema. O governo americano não tem poder sobre as empresas petrolíferas. Se Donald Trump pedir às companhias para cortarem na produção, ele vai ter de oferecer outros benefícios económicos. Na Arábia Saudita as companhias são estatais.

Na Rússia passa-se o mesmo? 
As companhias também são privadas. E tem outro problema, não faz parte da OPEP. Mesmo quando aderiu aos cortes da OPEP, na verdade nunca o chegou a fazer. As companhias são independentes, iam contra a política do Estado se Putin insistisse. Esse acordo foi uma jogada de mestre da Rússia, que ficou com a fama, mas que nunca cortou a sua produção.

Mas a oferta diminuiu e o preço subiu?
Na verdade, os cortes que não foram feitos acabaram salvaguardados pelas perdas de produção da Líbia, da Venezuela, do Irão, da Nigéria, tudo países que passaram por conflitos sociais armados, e por outros países que baixaram a sua produção, como aconteceu com Angola. Num modelo normal, sem estes factores, o plano de cortes da OPEP +1 não teria qualquer impacto.

A Arábia Saudita é, por isso, o elemento chave para um acordo? 
Claro. A Arábia Saudita pode chegar a um acordo, mas o único que quer é que a Rússia e os EUA cortem na sua produção. Há nesta altura 20 milhões de barris em excesso e é necessário cortar na produção para não afundar o mercado.

Esses barris estão onde?
Em todo o mundo. Parte em Angola, parte na Rússia, Estados Unidos, etc. As companhias continuam a produzir normalmente, os consumidores deixaram de comprar, as refinarias estão a parar e já não há espaço para armazenar, quer crude como refinados.

Mesmo que a actividade produtiva no mundo normalize, para consumir o excesso vão ser precisos uns meses? 
Consumir o excesso de crude no mercado vai levar todo o ano. Mesmo que a situação normalize em Junho e Julho, a nossa previsão é que o preço médio de venda para o barril para este ano seja de 37 USD e para o próximo ano de 53 USD. Para retirar o excesso do mercado vai levar muito tempo. Mesmo que o consumo normalize, a OPEP tem de fazer cortes. Prevejo que não vamos ter preços acima dos 60 USD antes de 2022.

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