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Ganga Júnior nega falência da Endiama


Nascido em 1956, José Ganga Júnior, doutorado em Economia e Gestão de Empresas pelo Instituto de Minas de São Petersburgo (Rússia), é presidente do Conselho de Administração da Endiama desde 1 de Novembro de 2017. Desde 1980 que trabalha no sector diamantífero. Quando assumiu os destinos de uma das maiores empresas do país, a situação financeira era dramática, num sector marcado pela falta de transparência e por relações tóxicas entre a Endiama, a Sodiam e operadores privados conectados com a alta política. Agora, o objectivo é transformar o país no terceiro maior produtor de diamantes do mundo

Os últimos dados públicos sobre a contabilidade da Endiama, referentes a 2018, demonstram lucros nesse ano e prejuízos em 2017. Qual é a explicação para uma variação tão grande?
As contas apontaram para um prejuízo em 2017 e para um lucro de cerca de sete mil milhões de kwanzas que, na altura, correspondiam a cerca de 22 milhões de dólares, em 2018. Para 2019, pensamos manter, mais ou menos, esta linha de resultados positivos, embora fosse um ano extremamente difícil, de investimentos na ordem dos 90 milhões de dólares (com recurso a fundos próprios). Estamos a criar condições para termos uma Endiama mais forte.
Como se justificam os prejuízos relativos a 2017?
Não procuramos muito o passado... Na altura, os rendimentos da empresa eram provenientes quase exclusivamente da produção de Catoca, que era o único projecto lucrativo. Todos os outros estavam com problemas. Só, o Catoca não suportava a empresa. Foi por este motivo que começámos a trabalhar na reestruturação dos projectos e das empresas mineiras para saírem daquela linha vermelha.
Neste momento, quais são os projectos que já estão a dar resultados financeiros positivos?
Podemos dizer que o Chitotolo passou por uma mudança radical e está andar bastante bem. O Somiluana também teve uma grande mudança positiva, bem como o Uari. No Cuango, ainda não conseguimos dar a volta. A empresa deve apresentar um prejuízo de cerca de cinco milhões de dólares. Mas a tendência para 2020 é o Cuango regressar aos lucros. O Luó vinha com prejuízos acumulados e, infelizmente, quanto mais trabalhasse maior era o nível de endividamento. Neste momento, está em recuperação. Catoca continua bem. Basicamente, são estes os projectos.
O Relatório e Contas de 2018 mostrava um activo corrente (cerca de 34 mil milhões de kwanzas) mais baixo do que o passivo corrente (cerca de 39 mil milhões de kwanzas) e um fundo de maneio negativo nos últimos três anos, ainda que em recuperação.
São dados preocupantes, porque significam que a empresa estava em falência técnica (passivo maior do que o activo). Qual é a estratégia para resolver esta situação? Em 2019, houve alguma alteração de fundo?
A estratégia é trabalhar. E proceder ao saneamento financeiro da empresa. Devo referir que a própria Endiama estava com um nível de endividamento superior a 500 milhões de dólares. Esta dívida deve ser saneada. Não estamos perante uma situação de falência técnica. Até porque devo referir que temos reservas provadas de diamantes de quase mil milhões de quilates.
Mesmo assim, a situação financeira deve causar diversos constrangimentos no dia-a-dia...
Quase todos os dias recebemos cartas de reclamação de dívidas do passado, contactos, convocatórias para tribunais. É uma situação bastante complicada. Mas temos de conviver com ela e o importante é definir um rumo de saneamento. É isto que temos estado a fazer.
O auditor independente que analisou o Relatório e Contas de 2018 fez muitas chamadas de atenção (ou reservas, no jargão contabilístico). A maior parte está relacionada com procedimentos contabilísticos pouco fiáveis, falta de controlo interno, de referências a processos em contencioso, elevada dívida à Sodiam. Neste momento, já foi possível resolver algumas destas questões?
Não pode ser diferente. É outro desafio que temos: eliminar todas as reservas dos auditores. A dívida à Sodiam está a ser conciliada e contratamos a Ernst & Young para esse efeito. Devo referir que um dos objectivos da Endiama é entrar em bolsa em 2022. Esperamos que assim seja. Mas estar na bolsa significa ter transparência absoluta: as contas têm de estar abertas e não podemos ter relatórios de gestão cheios de reservas. Tem de haver transparência mesmo. Se este é o nosso objectivo, então os problemas devem estar resolvidos até 2022.
Sobre a entrada em bolsa e a privatização parcial da empresa já existe algum objectivo financeiro a atingir?
Estamos distantes dessas definições, até porque as necessidades financeiras podem ser resolvidas pontualmente. Imagine que pretendemos lançar em bolsa um novo projecto que precisa de não sei quantos milhões de dólares... Neste caso, podemos emitir acções ou obrigações apenas para aqueles projectos.
A entrada em bolsa poderá ser feita projecto a projecto?
Exactamente, por isso, falar agora em objectivos financeiros é prematuro. O importante é que a entrada da Endiama na bolsa não vai pressupor a perda do controlo da parte do Estado. Ainda não está definida taxativamente a percentagem a libertar. Mas tudo aponta para que o Estado continue a deter uma participação não inferior a 70 por cento do capital.
Penso que é bom se assim acontecer. Mas é preciso ter em conta um aspecto muito importante.
Qual? 
O nosso sistema financeiro não está estruturado para atender a demanda do sector diamantífero. As necessidades de recursos são significativas: 500 milhões de dólares para lançar um projecto não é absolutamente nada e aqui não há estrutura para isso. Não temos bancos de desenvolvimento nem de fomento mineiro. É uma questão que também deve ser tratada e temos pensado no assunto. 
Que tipo de empresas poderão estar interessadas em associar-se à Endiama nestes termos?
A entrada em bolsa permite que qualquer cidadão possa adquirir acções. É uma forma de socializar a economia, na minha opinião. Mesmo quem tem poucos recursos pode investir nas empresas cotadas, desde que faça contas e que o nível de remuneração do investimento seja superior a outras alternativas. Naturalmente que precisamos de bons jogadores e estamos a trabalhar nessa direcção. Temos no país a Alrosa, a Lucapa Diamond, a Trans Ex. Estamos a negociar com a Rio Tinto, que é uma das maiores empresas mineiras do mundo. Também em conversações com a De Beers. É extremamente importante que venham para nos apoiar, para ganhar dinheiro, mas, também, para ajudar a fazer bem e a elevar a nossa fasquia em termos de produção.
Os parceiros internacionais também poderão entrar na privatização da Endiama?
Exactamente, seria perfeitamente natural e é comum esse tipo de participações cruzadas.
Um dos objectivos anunciados pelo Conselho de Administração passa por reforçar a empresa nos negócios nucleares. Neste sentido, o que irá acontecer aos diversos negócios fora do sector diamantífero (hotelaria, saúde, segurança, entre outros)?
Na prática, temos duas unidades hoteleiras. Em Luanda, estamos a trabalhar para vender aquela participação, que já não é 100 por cento nossa. O hotel no Dundo vai continuar a pertencer ao grupo, porque apoia a empresa e não há alternativas de alojamento naquela cidade. Também o nosso grupo desportivo utiliza o hotel, então é para ficar na Endiama. A Clínica Sagrada Esperança funciona um bocado como o nosso seguro de saúde, não só para os trabalhadores da empresa, como para os trabalhadores de todos os projectos.
E em relação à Alfa 5, a empresa de segurança?
Hoje, temos 70 por cento do capital da Alfa 5. Pensamos que devemos continuar com a participação, porque a nossa actividade requer este tipo de serviços. Mas, em vez de 70 por cento do capital, queremos estar presentes com uma participação menor, (eventualmente de 30 por cento). Interessa-nos pela especificidade do nosso serviço e porque também queremos ter mesmo segurança industrial e não apenas patrimonial. 
A Alfa 5 pode, igualmente, desenvolver esta vertente. Depois, ainda temos a Enditrade, que deverá ser privatizada. Também está com dificuldades operacionais e financeiras.
Neste momento, os grandes operadores diamantíferos ou mineiros, tirando os russos da Alrosa, não estão presentes em Angola. Por que razão as maiores empresas não estão presentes no quinto maior produtor de diamantes do mundo, que pretende ser o terceiro, a curto prazo?
No passado, tivemos, do nosso ponto de vista, um estrangulamento relativamente à criação do apetite para as pessoas investirem no sector e também na comercialização de diamantes. Estas dificuldades estão ultrapassadas. Pareceu-nos que constituíram um travão muito grande.
As empresas não investiam em Angola porque ganhariam menos dinheiro, devido aos clientes preferenciais e a uma estrutura de comercialização viciada?
Sobretudo, porque não tinham controlo da venda do produto do seu trabalho. Essa questão está ultrapassada. É por isso que estamos a negociar com a Rio Tinto para trabalhar connosco. Com a De Beers, temos estado a falar, já esteve presente em Angola, é um parceiro antigo e tem interesse em regressar. A Petra Diamonds é uma empresa relativamente pequena, mas tecnicamente muito bem dotada. Já temos o acordo de entendimento para investir no país. É um caminho que precisamos de percorrer, no sentido de atrairmos boas empresas para trabalhar em Angola. É um desafio.
Havia bastante confusão e muita opacidade sobre a titularidade de algumas empresas parceiras da Endiama, que, no fundo, estão ligadas a políticos, generais, familiares de dirigentes. Além da questão da comercialização, as multinacionais receavam esta aparente promiscuidade?
Esta é de facto a nova atitude no país. O objectivo é ultrapassar este tipo de situações: a questão da comercialização, a própria política de atribuição de concessões mineiras.
Neste momento, estamos a proceder à avaliação de um concurso público nacional e internacional para a atribuição de novas concessões. Embora seja importante referir que a questão do concurso público para a atribuição de licenças não é o único caminho. E muitas vezes até nem é o procedimento mais apreciado ou mais seguido. 
Porquê?
Por exemplo, uma Alrosa, De Beers, Rio Tinto já não aceita participar em concursos. Já deram provas e toda a gente sabe quem são. Preferem negociar directamente. Para mostrarmos que há mudanças, licitámos duas concessões onde concorreram empresas nacionais e estrangeiras. Para a contratação de serviços, também somos obrigados a realizar concursos públicos. A própria obrigatoriedade da prestação de contas tem reforçado a vontade dos parceiros em voltar a trabalhar connosco.
Há alguma reclamação que ainda resista, apesar das mudanças, em relação aos mecanismos de aprovação do investimento estrangeiro?
Temos estado a chamar a atenção dos nossos colegas, principalmente dos juristas, que talvez precisemos de aligeirar a carga burocrática do nosso sistema de trabalho. Os próprios contratos de investimento parecem-nos muito pesados, obrigam a muita negociação, muita repetição de processos. São coisas que, naturalmente, incomodam um bocado as pessoas. Há, também, algumas limitações, que nos parecem ser temporárias, como as dificuldades de acesso aos recursos cambiais. Também a falta de infra-estruturas (logística e energia eléctrica) continua a ser uma condicionante.
Da sua experiência, os contratos de investimento demoram quanto tempo até serem aprovados?
Podemos considerar cerca de um ano. Desde a negociação até à aprovação e emissão de todas as autorizações. É um processo que pode ser significativamente aligeirado.
“Vivemos grandes dificuldades devido à falta de foco na produção de diamantes”
Qual é o caminho que a Endiama deve seguir nos próximos dez anos?
Para sermos bons produtores de diamantes, naturalmente que devemos incidir a nossa actuação na produção. Infelizmente, quando cá chegamos, a Endiama detinha apenas participações em empresas mineiras. Não tinha operatividade mineira directa. Naturalmente, que devemos trabalhar para começar a criar competências nesta matéria. Como não podia deixar de ser, qualquer actividade tem desafios e dificuldades, mas, por força das próprias circunstâncias, as dificuldades das empresas mineiras eram ainda maiores. Por outro lado, tivemos em conta a realidade económica e social da região onde exploramos os diamantes. Também precisávamos de uma estratégia que permitisse garantir a paz social: infelizmente, há bastante desemprego nas zonas diamantíferas, há enormes carências e não podemos pensar em estabilidade com este tipo de vulnerabilidades. Estruturamo-nos para atacar este objectivo.
Desde quando a empresa está envolvida directamente na produção de diamantes?
Desde 2019, basicamente. Neste momento, estamos em dois projectos. Estamos a revitalizar o antigo projecto Luó, que foi reestruturado e agora chama-se Lunhinga. O Luó estava com uma situação económica financeira dramática, com um elevado nível de endividamento (superior a 500 milhões de dólares) e em situação de falência técnica.
Mas, se a prospecção foi bem feita, qual era o problema desse projecto, que envolvia a falida Escom e outros parceiros?
Gestão. Eram problemas de gestão. O que fizemos foi criar condições jurídico-legais para anular a concessão mineira e passar a gestão para a concessionária, no sentido de criarmos condições para a estabilidade da mina. Naturalmente, evitando desempregos e outras situações. Neste momento, a gestão do Luó, agora Lunhinga, é integralmente nossa. O projecto tinha uma produção média mensal de cerca de cinco mil quilates. Neste momento, já estamos a passar dos dez mil e a tendência é continuar a trabalhar no sentido de, a médio prazo, atingir os 20 a 30 mil quilates/mês.
E o outro projecto?
O outro projecto é o Uari, que estava com uma produção intermitente na ordem dos 1000 quilates por mês. Em pleno desastre. Neste momento, já conseguimos estabilizar para os 15 a 16 mil mensais. E pensamos que, a muito curto prazo, devemos estar a produzir cerca de 20 mil mensais. Em termos de produção própria, neste momento, a Endiama tem estes dois projectos. Também estamos a executar um programa para outras minas, nomeadamente, o quimberlito Songamina e a mina de aluvião Luachimo. São projectos de prospecção também conduzidos e realizados integralmente pela Endiama. São áreas de bom potencial, que, no curto prazo (um ano ou pouco mais), também poderão arrancar.
Por que razão, ao longo de 40 anos, a Endiama não investiu na capacidade de prospecção e gestão de minas? O que aconteceu para que se tivesse negligenciado esta vertente? A força da empresa não deveria estar nestas actividades?
Produzir é difícil mesmo e sabemos bem quanto nos está a custar na pele. No passado, as prioridades estavam mais ligadas à comercialização, viabilização financeira e gestão de participações sociais. Sentimos que a empresa vivia, e continua a viver, grandes dificuldades devido à falta de foco na produção de diamantes. Costumamos dizer que os técnicos que encontramos na empresa, pertencentes à estrutura central, na prática estavam enferrujados mesmo e com muito pouca dedicação ao trabalho. 
Vinham à empresa, assinavam o ponto, tinham o salário, mas estavam desmotivados. Tanto que arranjavam outras ocupações: eram consultores de empresas mineiras, alguns com funções de chefia nessas empresas. Naturalmente, que estamos a recompor a situação. Não faz sentido que uma empresa de diamantes não tenha foco no seu objecto principal. Mas pronto, isto é passado.
Ainda por cima, os sectores extractivos não criam postos de trabalho em larga escala, são actividades que vivem da capacidade de investimento. Ao longo do tempo, o Estado também formou bastantes pessoas em Geologia e Minas, que não estavam a ser aproveitadas. Que exemplos concretos pode demonstrar para percebermos as mudanças a este nível?
Nestes dois anos, enquadramos cerca de 1.400 técnicos ligados à geociência, tanto em projectos novos, como nos ajustamentos que estamos a fazer em várias empresas. A título de exemplo, muito recentemente decidimos fazer um recrutamento selectivo, exclusivamente para técnicos superiores, prioritariamente jovens, para começarem do início connosco: geólogos, mineiros, mecânicos.
Quantas pessoas trabalham no sector dos diamantes em Angola?
Não empregamos mais de 12 mil trabalhadores. 
São poucos postos de trabalho para um volume de negócios de milhares de milhões de dólares.
Tenho perguntado muitas vezes: quantos milhares de pessoas vivem nas províncias onde operamos? Mesmo no passado, a Diamang (empresa colonial que precedeu a Endiama) tinha efectivos superiores a 30 ou 40 mil trabalhadores. Mas o número de pessoas envolvidas na produção não ultrapassava muito o que temos hoje.
Os restantes trabalhadores da Diamang estavam envolvidos em que actividades?
A própria empresa desenvolveu programas de fomento da pecuária, agricultura, indústria. Nós pensamos que estamos em condições de passar, num curto espaço de tempo, a esse nível de empregabilidade. Agora, parece-nos que precisamos de uma filosofa completamente diferente da Diamang. Não vamos ser nós a desenvolver directamente a actividade agro-pecuária. O que pretendemos é criar condições e alicerces para o fomento desta actividade, mas de forma descentralizada, criando empreendedores locais.

Segundo o Relatório e Contas de 2018, o número de trabalhadores nos projectos mineiros em exploração passou de 6574, em 2017, para mais de sete mil. Porquê?
Devo referir que nós trabalhamos em várias direcções. Os projectos em funcionamento foram todos diagnosticados e temos trabalhado com cada uma das empresas no sentido de melhorar a sua actividade. Nós próprios também precisamos de gente nos projectos que temos. É por isso que temos estado a recrutar. Algumas empresas entram em produção efectiva em 2020. Mas, já tiveram produção-piloto em 2019, nomeadamente Luachimo e Furi. É uma cadeia normal: à medida que vamos incrementando a actividade mineira, naturalmente que a força de trabalho vai aumentando. Em 2020, devemos contratar mais de 1.200 pessoas. É um movimento normal neste contexto.
O Catoca vai ter um “irmão” - porque a mina tem características similares - que é o Luaxe, que, em princípio, terá um potencial maior do que Catoca. Pode anunciar quando estará em operação?
É um projecto que, neste momento, está em fase de conclusão da investigação geológica. Durante este ano, a nossa meta é criar condições para que, em 2021, o Luaxe possa entrar na fase de produção-piloto. A qualidade dos diamantes é razoável, mas a mina tem problemas técnicos que são desafiantes e significativos, nomeadamente, a questão das águas. Ainda requer algum tempo para resolver, porque teremos de fazer um enorme desvio do rio. Enquanto decorrem os estudos complementares, a intenção é construir, desde já, uma estrutura de tratamento e de produção experimental. Em 2021, pensamos ter uma produção de, pelo menos, quatro milhões de quilates. Enquanto isso, vamos criar condições para, no futuro, termos uma estrutura mais ou menos, semelhante à do Catoca, que produz oito a dez milhões de quilates por ano.
Se pudesse fugiria do sector artesanal
A produção artesanal de diamantes por via do cooperativismo interessa à Endiama?
Encontrámos muita confusão neste domínio. Muita gente envolvida, muita falta de controlo, um chamariz para a imigração ilegal e para o tráfico ilícito. Em determinada altura, houve a necessidade de suspender a actividade artesanal em coordenação com a “Operação Transparência”. Encontrámos 700 processos e projectos sobrepostos. Uma anarquia completa. Tentámos normalizar, não excluindo todas as solicitações, mas aproveitando as pessoas para transformá-las no bom sentido. 
Dos 700 processos, legalizámos cerca de 260 cooperativas artesanais. E mesmo assim pensamos ser um número elevado.
Na altura da implementação desta iniciativa, ouviram-se bastantes críticas. Algumas pessoas perguntaram se este caminho faz sentido e se é sustentável. Qual é a sua opinião?
Tivemos em conta a necessidade de trazer as pessoas para a actividade económica formal na Lunda-Norte e Lunda-Sul. Havia uma pressão na zona, devido ao garimpo. A legalização da actividade informal por via das cooperativas foi uma estratégia para formalizar o garimpo e tentar criar alguns mecanismos para aliviar a pressão que existia.
Mas, na prática, esta situação trouxe mais soluções ou mais problemas para o sector?
Continuo a crer que foi o caminho possível e de acordo à nossa realidade. Porque o Botswana, por exemplo, não precisa deste tipo de exploração artesanal, porque não há diamantes de aluvião. Os quimberlitos são controláveis sem problemas absolutamente nenhuns. A África do Sul tem diamantes de aluvião já em exaustão e acredito que tiveram uma realidade económica e social completamente diferente da nossa. Embora também existam notícias de tráfico ilícito, mas em dimensões completamente diferentes. Em Angola, podemos dizer que há registo de diamantes em todo o país. As explorações semi-industriais têm por obrigação não permitir que o garimpo prolifere. Estamos nesse processo. Não podemos fugir dele, devemos torná-lo uma realidade.
Se pudesse, fugiria da exploração artesanal?
Se pudesse fugir, fugiria.
“É um facto que ocorreram episódios de violência nas zonas diamantíferas”
A Endiama enfrenta manifestações regulares junto à sede da empresa, em Luanda. Há dívidas com a segurança social e salários por regularizar. Como têm gerido estes problemas?
Surgiu de facto alguma contestação, houve um passivo dessa natureza. São dois casos bastante antigos. Há um caso de trabalhadores da área do Cuango, que remonta a 1992 . E temos outro, caso de cinco projectos que paralisaram, em 2008, durante a crise económica e financeira que provocou o encerramento de várias empresas há 12 anos. Esses casos foram trabalhados no passado. Estivemos agora a ver a documentação e as informações disponíveis, até onde podemos confirmar, indicam que os salários em atraso foram liquidados. Ficou de facto o problema da segurança social para resolver. E esse caso, para nós, é um pendente. Trabalhámos com o Ministério da Administração Pública, Trabalho, Emprego e Segurança Social (MAPTESS), particularmente com o Instituto Nacional de Segurança Social (INSS) para fazer um levantamento.
Qual é a situação, neste momento?
Para proporcionar a integração dos trabalhadores no sistema de segurança social, a Endiama teve que pagar ao INSS o correspondente aos 15 anos de prestações em falta. Em 2019, o valor pago ao INSS situou-se em 6,6 mil milhões de kwanzas, que na altura correspondia a 20 milhões de dólares. Já se fez o pagamento. Faltam 900 milhões de kwanzas, que serão entregues durante o mês de Janeiro. Entretanto, uma boa parte dos trabalhadores continua a manifestar-se junto à sede da empresa. Reclamam novos valores em dívidas referentes a salários. Nós mantemos o diálogo e recomendamos que esse assunto seja objecto de intermediação pela Inspecção Geral do Trabalho.
A contestação dos trabalhadores conecta-se com os relatos de violência grave nas zonas diamantíferas. São casos publicitados por via do livro de Rafael Marques “Diamantes de Sangue” e de outros documentos e trabalhos de investigação, onde até autoridades tradicionais dão a cara pelos lamentos e confirmam os casos mais graves (assassinatos, violações, abusos de poder, promiscuidade entre investidores e forças de segurança). De que forma a Endiama analisa estas suspeitas?
É um facto que ocorreram os episódios que relata. Com muito mais incidência no passado. Hoje, as coisas estão suavizadas. É uma realidade que resulta também da nossa situação geológica, pela proliferação de diamantes de aluvião em vários pontos do país. A anarquia que existia na altura também dificultava a situação, com o garimpo a actuar em concessões de projectos industriais. Os garimpeiros entravam nas áreas em exploração e a segurança reagia. A outra questão está relacionada com a outorga dos direitos mineiros em áreas parcialmente povoadas. Muitas vezes aconteciam choques e confrontos entre as populações, nas pequenas lavras, que têm sido resolvidos recorrendo ao diálogo.
“Promiscuidade no sector não foi boa para ninguém”
No Relatório e Contas de 2018, consta que a Endiama mantém uma dívida elevada com a Sodiam. A Sodiam é um "filho" da Endiama e hoje está fora da empresa. Como analisa essa questão e a relação actual, sendo que é fundamental para a empresa, porque é o canal de distribuição?
É uma relação normal, boa, sem qualquer problema. A saída da Sodiam do seio da Endiama foi uma decisão. É uma empresa pública, tal como nós, e, naturalmente, temos alguma complementaridade nos projectos mineiros. 
A Sodiam também é nossa cliente: compra 20 por cento da nossa produção, enquanto os restantes são vendidos directamente pelos produtores.
Por vezes não é uma relação confusa e de pouca transparência? 
Enquanto cliente, poderão existir objectivos diferentes. Na relação comprador-vendedor é natural que surjam visões diferentes. Mesmo aí estamos a trabalhar no sentido de encontrar um denominador comum na nossa linguagem. Precisamos de definir um critério de classificação, avaliação e determinação do preço do diamante. Não apenas com a Sodiam, mas com todos os compradores. Temos que conviver sem dificuldades. Logo após as eleições de 2017, a Endiama e a Sodiam denunciaram uma série de contratos com parceiros politicamente expostos. Entretanto, o valor médio arrecadado por quilate aumentou cerca de 30 por cento. É uma situação bastante polémica e que deu origem a pronunciamentos públicos de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, que podem até levar o caso à Justiça. Nós contribuímos e fizemos parte da alteração do sistema de comercialização anterior. Participámos activamente na definição da nova politica de comercialização, no respectivo regulamento técnico que provocou esse movimento de mudanças, de forma a eliminar os clientes preferenciais. Estivemos sempre presentes no processo e achámos que não podia ser diferente. Naturalmente, que algumas empresas consideram-se lesadas. É um processo normal. O que não está bem tem de ser corrigido e devemos continuar a trabalhar para uma maior transparência.
E a relação com às empresas de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo?
A questão de Isabel dos Santos e do marido... Nós não temos uma relação directa com Isabel. Tivemos uma empresa onde eles estavam envolvidos em termos de produção. Mas tratamos do assunto nos termos da lei e, sem qualquer conflito, resolvemos o problema. Não temos conflito com Isabel dos Santos, nem com Sindika Dokolo. As concessões que eles tinham estavam paradas ou com as licenças caducadas.
Que balanço faz desse processo e do que aconteceu nos últimos 20 anos? Considera que a estratégia de relacionamento entre a Endiama e estas entidades politicamente expostas foi positiva para o país?
As evidências estão aí. Não foi bom para ninguém. O país está pobre, com dificuldades, com miséria. É preciso trabalhar para mudar, para inverter radicalmente a situação e criar riqueza.
A decisão política que uniu o antigo Ministério da Geologia e Minas ao sector petrolífero faz sentido? São dois sectores fundamentais e por vezes fica a sensação de que pode ser uma estrutura grande demais para ser gerida com eficiência. Qual é a sua opinião?
Faz sentido e está tomada a decisão. Nós abraçamos a ideia e ajustamos-nos à realidade. É uma organização com uma estrutura orgânica funcional. Não há problema nenhum.

A existência de um Ministério dedicado ao sector mineiro seria melhor para a Endiama?
Não necessariamente, está bem assim, faz sentido. Até porque o Governo poderia ser ainda mais magro, na minha opinião. É apenas uma questão de nos ajustarmos estruturalmente e cumprirmos os objectivos.

FONTE - jornaldeangola

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